segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"MInhas mães e meu pai", 2011, Lisa Chodolenko


Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) formam um casal mais que feliz. Casadas há anos, optaram por fazer inseminação artificial para terem dois filhos; o mesmo esperma para os óvulos de ambas, e, para tal, lançaram mão de um doador anônimo. O fruto disso foram seus dois simpáticos filhos – Laser (Josh Hutcherson) e Joni (Mia Wasowski), típicos adolescentes inquietos e em busca de “coisas”, e uma família fantasticamente meiga e funcional.

Laser – garoto heterossexual, bonitão e esportista – tem achado, porém, que nos últimos tempos falta-lhe em sua vida uma figura masculina. Quando lhe cai a ficha que Joni, sua fiel companheira, está se mudando para a faculdade, Laser descompensa de vez e passa a ter uma crise de identidade – encana que será um martírio conviver com as mães lésbicas e que precisa dessa figura masculina para não enlouquecer. Laser convence então Joni a procurar quem foi o doador do esperma, quem é o “pai” deles e de onde vieram, de fato.


Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right) é um filme que passeia, portanto, despretensiosamente por temas para lá de polêmicos – talvez por isso seu sucesso retumbante. Quando se fala em paternidade entre homossexuais, filósofos, sociólogos e psicólogos dividem-se seriamente em dois grupos bastante distintos que dão opiniões das mais pertinentes às mais levianas. Há quem apoie e, brilhantemente, defina isso como o curso natural da evolução do homem – só saberá a consequência
disso quem viver para ver; não há o que fazer senão sentar e observar. E há quem diga (os mais ortodoxos) que se trata de um modelo equivocado e “perigoso” – a confusão causada pela duplicidade de gênero das figuras de identificação poderá levar a criança a novas e diferentes formas de pensar e agir sobre sua sexualidade, gerando, por fim, novos desvios e um exercício “bizarro” da sexualidade, sem contar o resultado desastroso para o fim da mesma, que seria “claramente” a reprodução.

Lisa Cholodenko, também roteirista das prestigiadas séries de TV The L Word e Six Feet Under, certamente notou que essa discussão é inútil e só faz parte do discurso de pessoas mal resolvidas, ignorantes e que portam antolhos como óculos escuros.

De fato, Laser, como qualquer rapaz de sua idade, poderia “usar” uma figura masculina para lhe tirar umas dúvidas ou até para poder conversar e desabafar sobre qualquer assunto. Chodolenko aproveita essa premissa para trazer à tona Paul (Mark Ruffalo), o “pai” dos garotos. Paul é um típico quarentão boêmio que por opção não se casou e passou a vida tendo namoricos e affairs. Quando jovem precisava de dinheiro e por isso fez a doação – algo que ele sutilmente declara como uma coisa impensada, de gente jovem e desprendida...
Ao longo do filme, Laser vai se aproximando de Paul. Em alguns momentos, identifica-se com as formas de pensar desse cara; em outros, passa a ver que nem sempre as coisas são como se imagina: diante dele, a postura viril, masculina, livre, juvenil, meio
irresponsável e descomprometida de Paul vai aos poucos batendo de frente justamente com as ideias de família, dever e metas que suas mães ensinaram a ele, e que nitidamente são responsáveis pelo ambiente tão acolhedor e próspero que ele mesmo admite ter em casa. Laser percebe, aos poucos, que aquela falta que imaginara ter era apenas uma pobre especulação que fazia sobre a capacidade de Nic e Jules darem a ele as respostas que buscava.


Lisa Chodolenko também assinou a direção. Fez um trabalho leve e divertido, no qual discute o papel de cada uma dessas mães: há o cuidador e o provedor, aquele que impõe limites e aquele que bota para dormir, e assim por diante. Não fez um filme moralista, muito pelo contrário – sem aprofundar demais, joga para o espectador assuntos como o desgaste de um casal, a possibilidade da orientação de cada um sofrer pequenas mudanças no percurso e, principalmente, a dificuldade de reger e erguer uma família, seja ela fruto de um casal hetero ou homossexual.

Biológica ou não, oriunda do casamento ou não, matrilinear ou patrilinear, monogâmica ou poligâmica, monoparental ou poliparental, não importa. Nem importa o lugar que o indivíduo ocupe no seu âmago, se o de pai, se o de mãe, se o de filho; o que importa é pertencer ao seu âmago, é estar naquele idealizado lugar onde é possível integrar sentimentos, esperanças, valores, e se sentir, por isso, a caminho da realização de seu projeto de felicidade pessoal.” Giselda Hironaka, Titular do Departamento de Direito Civil da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP).


Annette Bening e Julianne Moore estão entregues aos papéis. Resolveram criar uma simbiose muito rica e vívida entre as duas personagens. Nos momentos mais leves, as duas parecem se divertir em cena; e, naqueles mais duros, dão um banho e comovem todos. Não é à toa a indicação de Annette Bening ao Oscar 2011. Mark Ruffalo também diz a que veio – vive um verdadeiro quarentão e pontua o filme com bons momentos cômicos.

Vê-se ali um nítido entendimento de que este filme não é um drama, e sim uma comédia para a família. Afinal, algo tão comum e que irá fazer parte do dia a dia de milhares de bairros e cidades no mundo, num futuro não tão distante, não poderia ser ilustrado de forma mais natural que essa.


Minhas Mães e Meu Pai
certamente promoverá algum abalo sísmico na corrida para melhor filme no Oscar 2011.

Fica dica!!! Indubitavelmente.


Principalmente para aqueles com muitas dúvidas em Current Affairs e General Knowledge.

2 comentários:

  1. "portam antolhos como óculos escuros"
    Haaaahhh, to rolando de rir aqui! Muito bom!
    Quem escreveu isso? Camões?

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